terça-feira, 23 de outubro de 2018

Mal-entendido

A vida é cheia de mal-entendidos.

E na biblioteca não seria diferente.

Certa vez, uma leitora pediu ajuda:

- Bom dia! Por favor, Iracema?

E uma colega prontamente respondeu:

- Desculpa! Aqui não tem ninguém com esse nome.





Todos rimos e a colega percebeu seu equívoco. 

E é lógico que eu imaginei a continuação dessa conversa...

A leitora diria:
- A Iracema que eu falo é a do José de Alencar.

E a colega responderia:
- Mas, minha querida, se eu não conheço nem a Iracema como é que vou conhecer o marido dela, esse tal de José? Ainda mais ele sendo de Alencar. Ainda se fosse daqui de Atibaia...

Outra coisa que acontece muito é ligarem aqui por engano.

- Biblioteca, bom dia! (Sempre falo essa frase e em 90 % das vezes ela é ignorada)

- Bom dia! Eu queria saber quanto fica pra fazer um orçamento? 

- Um orçamento? 

- Sim. É o seguinte: minha calculadora científica caiu e agora todas as vezes que eu ligo aparece um monte de zeros...

- Então, mas é que aqui não...

- Ela até tá funcionando...

- Então, mas aqui é uma...

- Mas tem hora que aquele monte de zeros me atrapalha e eu não consigo fazer meus cálculos. O que o senhor me sugere?

- Eu sugiro "O Homem que Calculava".

- Como assim, não entendi?!

- Sugiro o livro "O Homem que Calculava" do Malba Tahan. 




- Escuta! Aí não é da assistência técnica?

- Não. Aqui é da BIBLIOTECA!

- Pô, cara! Tá pensando que eu sou palhaço? Por que não disse isso antes? 

- Mas foi a primeira coisa que eu disse...

Tarde demais. Ele já havia desligado o telefone na minha cara.

E "senhor" é o vô dele! Inferno!

instagram.com/paulosergiofa









quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Orkut

Recentemente, um rapaz chegou aqui na biblioteca pedindo para usar a sala de informática.

Anotei o nome dele e expliquei que os computadores eram bloqueados para redes sociais. Ele concordou e foi se sentar. Um minuto depois, me chamou:

- Moço! 

- Sim?

- Como eu faço pra entrar no meu orkut?

Tive vontade de responder: 

- Aqui é biblioteca, não é museu.

Mas, claro que eu não disse isso. 

Apenas expliquei (novamente) que os computadores só funcionavam para pesquisa. 

Ele ficou me olhando com cara de paisagem. 

E eu olhando de volta com cara de boneco de madeira.

Daí ele se levantou "p" da vida e foi embora me xingando, mandando eu tomar no "orKUt"!

Deve ter pensado que eu estava com má vontade.

Ah, vá reclamar pra Google!

No mesmo dia, um leitor que estava observando alguns DVDs que temos para empréstimo, de repente perguntou:

- E fita VHS vocês têm?

Para quem não sabe, fita VHS é aquela usada em videos cassetes para assistir filme.

Eu sei não porque sou antigo, mas sim porque leio muito... 

Mentira.

Sou da época em que o videocassete tinha controle com fio ainda!

Para completar, mais tarde, um senhor de oitenta e poucos anos perguntou se a gente teria uma máquina de escrever para doação.

Eu: - Não temos, senhor.

Ele: - Então me vende essa aí - disse apontando a máquina.

Eu: - Desculpe, não está à venda.

Ele: - Qual o preço?

Eu: - Não tem preço.

Ele: - Como não? Tudo tem seu preço, rapaz!

Achei graça na insistência dele. Expliquei que aquela máquina não me pertencia e sim à Prefeitura. E que, além disso, nós ainda a usávamos.

Ele: - Isto é sério? Vocês ainda usam máquina de escrever nos tempos de hoje? 

Eu: - Sim. 

Ele: - Que atrasados!

Eu: - Desculpe, mas o senhor queria a máquina para que mesmo? Colocar de enfeite?

Ele: - Deus me livre! Eu ia passar pra frente, fazer negócio com um antiquário e levantar uma grana para comprar botas novas de escalada em gelo.

O senhor se despediu de mim, sacou do bolso um celular de última geração e foi embora fazendo uma "live" contando no seu canal no youtube que havia acabado de visitar uma biblioteca que vivia no século passado.

E eu achando que era moderninho.

Ter espírito jovem não tem preço! 










quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O fantasma da biblioteca




A loira do banheiro é coisa do passado.

Segunda-feira passada, estávamos fechando a biblioteca e eu fui verificar se algumas luzes estavam apagadas.

Quando me aproximei do banheiro do fundo, a porta se fechou. Voltei lá pra frente reclamando:

- Brincadeira! A pessoa vem usar o banheiro bem na hora da gente fechar.

Minha colega Wal disse que quem estava no banheiro era uma senhora que passou por ela e disse coisas que ela não entendeu.

Seria estrangeira?

Ficamos conversando lá na frente e esperando. E a senhorinha nada de sair. 

Depois de um certo tempo, preocupado, comentei com a colega Lu:

- Será que a senhorinha está passando mal? 

Como o banheiro era feminino, pedi que minha colega fosse bater na porta. 

Ela bateu. Chamou. E nada. 

Virou a maçaneta. Estava aberta.

- Paulo, não tem ninguém aqui.

- Como assim?

Fui até lá. Não havia ninguém mesmo.

Olhamos no outro banheiro, ao lado. Nada.

A Lu riu da minha cara de espanto.

Teria sido coincidência a porta se fechar bem na hora que eu me aproximei?

Pode ser.

Mas e a senhorinha de fala estranha que a Wal viu?

- Era loira - ela disse.

Então, não tive dúvidas: era a loira do banheiro. 

Fantasmas também envelhecem.






sábado, 6 de outubro de 2018

Trilogia Erótica

Romances eróticos (na linha 50 Tons de Cinza) são muito procurados na biblioteca.

Porém, existem alguns livros que NÃO são dessa linha, mas, por conta do título, parecem ser. 

Baseado nesses títulos esdrúxulos fiz um exercício de imaginação e criei uma nova trilogia de livros eróticos.

Seguem os títulos e as resenhas:

Livro 1: OS CUS DE JUDAS


Conta a infância e a adolescência de um jovem que se descobre homossexual e que é portador de uma mutação genética rara que o fez desenvolver 7 "foreves" (ou fiantã ou toba ou furico, pra quem não conseguiu entender). 
Dos 13 aos 19 anos, o corajoso Culisses Judas passa por uma verdadeira Odisseia ao ser submetido a um tratamento de hemorróidas múltiplas.

Livro 2: O REI DOS PAUS


Narra o encontro de Culisses com sua (suposta) alma gêmea, Paulo Pinto, O rei dos paus.
Paulo Pinto também é portador de uma mutação genética até então nunca vista: possui 7 "pinguelos" (ou jeba ou Pikachu ou saroba, pra quem não conseguiu entender).
O "encaixe" entre eles é tão perfeito que eles se casam no final deste livro. (Spoiler)

Livro 3: SACO DE OSSOS


Esta parte final foca na figura de Jó Tranquilo, um amigo em comum do casal que não para de brigar e de reclamar do casamento e do parceiro para ele.
Embora Culisses e Paulo Pinto encham diariamente o saco de Jó, o saco deste não estoura porque ele também possui uma mutação genética: saco de ossos.

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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Doação de livros

A cerca de um mês, 150 livros novos foram incorporados ao acervo da biblioteca. 

Todos doados pela população.

Mas, nem todas as doações chegam em bom estado.

Certa vez, apareceu um senhor aqui dizendo se eu poderia pegar uma caixa de livros no carro dele.

- Trouxe livros maravilhosos para vocês! - ele disse.

Fui até o carro. Abri o porta-malas. Peguei a caixa. Estava muito, mas muito pesada!

E o homem falando:

- Você não imagina a raridade que tem aí!

"Pelo peso, deve ser uma múmia egípcia" - pensei.

- São livros antigos! Só não coloquei à venda na internet porque quero contribuir com a biblioteca da cidade. - ele disse.

Quando abri a caixa de papelão, era como se, de fato, eu tivesse aberto o sarcófago do Tutancâmon.




O cheiro de coisa velha guardada era tão forte que embolorou o meu pulmão na hora!

Exagero!

Mas que atacou minha rinite, isso atacou!

Enquanto eu retirava os livros da caixa (e espirrava sem parar), o senhor ficou parado me observando.

- Muito obrigado, senhor! - eu disse, para ser gentil.

- Eu não disse que eram raridades? 

- Sim. Deve ter até um correio elegante escrito "de Adão para Eva com amor".

- O quê?

- Eu disse que, de fato, são muito raros.

- Ah...

Falando sério:

Biblioteca NÃO É depósito de lixo.

Livros mofados ou com broca (um bichinho que come os livros) não podem ser colocados ao lado de livros novos pois estes também ficarão estragados.

Já livros em BOM ESTADO serão sempre muito bem-vindos.

instagram.com/paulosergiofa




quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Sem o livro

- Bom dia, Paulo!
- Bom dia!
- Tô com uma listinha de livros. Você pode me ajudar a procurar?
- Claro!
- O primeiro é "A arte...
- ... da guerra"!
- Nossa! Você é vidente, é? 

Risos

- O segundo é "Quem mexeu...
- ... no meu queijo?"
- Para vai! Que truque é esse?
- (Rindo) - É que são livros bem conhecidos.
- Quero ver você acertar o último: "Pai rico...
- ... pai pobre".
- Ah, não! Você tá de sacanagem?!
- (Risos) Vou pegar os livros.

Pego os livros nas prateleiras e os coloco no balcão.

- E então, qual você vai levar?
- Como assim?
- É que você só pode levar um por vez.
- Sério?
- Sério.
- Hum... Deixa eu pensar...

15 minutos depois

- Paulo, qual você sugere que eu leve?
- Olha, depende do teu objetivo. Um é de estratégia militar. O outro, sobre motivação. E o terceiro, orientação financeira.
- Entendi... Bom mesmo seria se pudesse ter tudo isso num livro só.
- E tem.

Vou até a prateleira, pego um livro e mostro para o leitor:





O leitor olha para o livro, arregala os olhos, olha para mim, faz o sinal da cruz e diz:

- Bruxo!

E vai embora sem o livro.

instagram.com/paulosergiofa


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Os cheiros da biblioteca

Biblioteca tem cheiro?

Tem!

Conforme o vento, um aroma de pipoca doce do carrinho da praça invade o ambiente e é tão forte que já está nos causando hiperglicemia coletiva.

Já na hora do almoço, é a vez de sofrermos com o perfume da comida do vizinho (ou vizinha).

O cheiro é tão bom que, certa vez, uma leitora perguntou se eu estava escondendo um porco atrás do balcão tamanho o ronco que o meu estômago deu.

Infelizmente, nem todos os cheiros são agradáveis...

Quem trabalha com público sabe que é normal se deparar no final de uma tarde de verão com um trabalhador que passou o dia na luta e que vai chegar até a gente um pouco suado.

Isso é entendível e perdoável.

Agora, o que eu não entendo é a pessoa chegar aqui logo cedo, assim que abrimos, cheirando à pizza vencida de aliche com cebola extra.

De todos esses casos sobre cheiros, há um que considero o mais bizarro.

Numa tarde, estávamos trabalhando normalmente quando, de repente, ouvimos um estrondo alto e prolongado.

Olhamos um para o outro e eu disse:

- Será que vai chover?

O céu era azul de outono. O tempo, extra seco. Não ia chover nem a pau!

O barulho se repetiu. Mais alto e mais forte.

Seriam anjos apocalípticos anunciando o fim do mundo com suas trombetas?

Não.

Era um leitor na sala ao lado cuja flatulência poderia encher um balão com um só golpe.

Neste dia, agradeci muito a Deus por estar com sinusite e não conseguir sentir cheiro de nada.

Já minhas colegas de trabalho estavam quase morrendo asfixiadas pelas bombas do leitor que certamente em breve será contratado pelo Talibã.

Falando dos meus colegas de trabalho, não posso reclamar. Todos apreciam um bom perfume.

Certa vez, uma ex-colega, hoje aposentada, saiu do toalete e um senhor que estava ao bebedouro olhou para ela com olhar sedutor e disse:

- Nossa! Que perfume gostoso...

Mas a colega muito irritada respondeu:

- Isso não é perfume. Isso é BOM AR!

E saiu toda magoada e chorando.

Se ela se chamasse Gabriela, já teria ganhado um apelido: "Gabriela Cravo e Canela", porque este era o aroma do odorizador de ambiente.

Mas se chamava Ana.