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quinta-feira, 9 de maio de 2019

Gêmeos

O rapaz entrou na biblioteca, olhou bem no meu rosto, sorriu e perguntou:

- Você é parente do cara da foto?

Pensei logo no meu primo, que trabalha na mesma rua, numa loja de artigos para fotografia. Na dúvida, perguntei:

- Qual foto?

- Aquela na parede.

Na entrada da biblioteca, temos a foto do patrono, Joviano Franco da Silveira.

Eu ri. Era a quinta vez que me comparavam ao Joviano desde que comecei nesse emprego.

Bem que eu gostaria de me parecer com ele.

Não fisicamente. E sim na qualidade intelectual.

Ele era poeta, historiador, jornalista e filósofo.

E mesmo vivendo apenas 23 anos, deixou uma vasta bagagem literária, grande parte desta conservada no Museu Municipal de Atibaia.

Abaixo, segue a minha foto ao lado da foto do Joviano.

Parece ou não parece?




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terça-feira, 7 de maio de 2019

Taxidermia

Taxidermia não é uma epidemia de táxis nem uma doença de pele.

É o processo de encher com palha um animal morto para que mantenha as suas características.

Domingo retrasado, trabalhei no Museu de História Natural no Parque Edmundo Zanoni em Atibaia.

340 pessoas visitaram o local naquele dia.

A parte mais divertida foi ouvir os comentários das crianças diante de tantos animais empalhados.

- Ai, coitadinho! Esse também morreu...

Comentou uma garotinha de seis anos.

Talvez ela tivesse esperança de encontrar algum animal vivo ali.

Outra menina da mesma idade, mais conformada, disse:

- Todos eles morreram...

Acho que na imaginação das crianças, os bichos foram colocados vivos no museu e depois, por falta d'água, comida e ar, morreram dentro das vitrines. E, para elas, o culpado era eu.

O que explica uma menina me mostrar a língua antes de ir embora.

Um garoto de oito anos entrou sozinho, deu uma olhada no gavião empalhado e saiu com os olhos arregalados. Voltou com o pai e, sentindo confiança, soltou essa:

- Pai, vem ver. Tudo isso "eles" mataram.

Eles, no caso, era eu. Eu e os meus comparsas. Ou capangas. Como nós éramos maus!

Outra menina, entrando com a mãe, disse:

- Mãe, todos os bichos que estão aqui, antes estavam no parque. Eles morreram. Ou mataram eles.

A menina disse essa frase cinco vezes seguidas.

Só podia ser indireta.

A única criança que não me acusou foi um menino de nove anos que veio correndo do salão do fundo dizendo:

- Vó! Vem logo que vão atacar a gente!

A vó saiu rindo.

Se bem que depois fiquei pensando se o menino não estava se referindo a mim... O "caçador". O homem mau!

Para fechar, uma adolescente de dezessete anos entrou, olhou para os bichos empalhados e perguntou:

- Moço, são todos de mentira?

- Não, são todos de verdade.

- Deus me livre!     

E saiu correndo.

"Deus me livre" se estivessem vivos. Imagina sentir uma fisgada na panturrilha, olhar para baixo e perceber que tem um filhote de onça brincando com você enquanto é observado pelos pais lá no fim do corredor...




Instagram: Paulo Sergio

sábado, 4 de maio de 2019

Sábado sem história

Depois de participar de uma oficina de escrita criativa e entender que escrever não é questão de inspiração e sim de prática, passei a ficar uma hora por dia, todas as tardes, criando no computador.

É sábado. Trabalhei na biblioteca até meio-dia. Chego em casa, almoço  e corro com a faxina. Às 15 horas, estou liberado.

“Sobre o que vou escrever hoje?”

Abro o notebook e me lembro: “São as palavras que conduzem o texto.”

Começo a digitar o título:

“A”

Alguém bate à porta.

Atendo.

- Pois não?

- Boa tarde, senhor! Sou, Wagner, representante da Hino...

- Aceita um copo d’água?

- Aceito.

- Só um minuto.

Encosto a porta. Entro. Pego o copo d’água. Levo ao vendedor. 

- Muito obrigado

Ele bebe com vontade. É um outono atípico, de muito calor.

- Aceita mais um pouco?

- Obrigado! Estou satisfeito. O senhor conhece os produtos da Hino...

- Imagina! Eu pego mais.

- Senhor, não precisa...

Já estou dentro de casa.

Pego a garrafa d’água. Encho o copo. Ele toma. Pego a garrafa de novo...

- Não. Não. Não... Aaaaaah!!!

Encho pela terceira vez.

Ao terminar, ele dá um passo para trás, antes que eu possa encher seu copo novamente.

- Não aguento mais. Estou satisfeito. 

- Ok.

Ele estica o braço para me devolver o copo. Pego.

- Então, senhor...?

- Paulo.

- Senhor Paulo...

- Só Paulo, por favor.

- Ah, desculpe. Então, Paulo, você conhece os produtos da Hino...

- Só um minutinho que eu vou guardar o copo.

Entro. Encosto a porta. Volto trazendo um saco de biscoito de polvilhos e umas paçocas de rolha.

- Wagner, trouxe umas coisinhas pra você comer. Sei que andar o dia todo na rua dá muita fome. Eu mesmo quando trabalhava na companhia de energia elétrica...

Conto minha história enquanto ele come biscoitos e paçocas. O segredo para se livrar desses vendedores é falar mais que eles.

Quando percebo que ele está com dificuldade de engolir pela secura dos alimentos, é o momento de questioná-lo:

- Faz tempo que você trabalha com esse produto?

- (...)

Ele tenta responder e engasga.

Bato nas costas dele.

- Vou buscar mais água.

- Nããããããoooooo...

Quando volto com a segunda garrafa d’água, o vendedor já foi embora.

“Finalmente vou poder escrever”.

Já são 16 horas.

Recomeço a digitar o título. O notebook desliga.

Corro e abro a gaveta. A conta de luz foi paga.

Saio na rua. A vizinha que tudo sabe, tudo vê traz a notícia:

- Acabou a energia da rua toda.

Na esquina, há um caminhão da companhia de energia. A mesma que trabalhei e contei a história para o vendedor. 

Parece castigo.

- Tem previsão de demora, amigo?

- Daqui uma hora a energia volta.

Entro à procura de um lápis, uma caneta, um papel.

Encontro o papel. Mas e as canetas? Lembro que emprestei o estojo para o meu sobrinho brincar e só Deus sabe onde ele deixou.

Fico agoniado. Escrever é uma necessidade para mim.

“O celular, claro!”

Pego o celular. A bateria está acabando.

Resolvo fazer um café. No fogão. Não há energia para usar a cafeteira.

O café dá certo. Pelo menos isso. Volto para a rua. Sento na porta de casa. Fecho os olhos. Tento meditar...

“Piiiiiii...”

O microondas apita. A energia está de volta.

Entro na cozinha e ao olhar a hora me dou conta que cochilei sentado na porta.

“O que a vizinha vai dizer?” 

- Certeza que fumou erva.

Ela que pense.

Ligo novamente o notebook. 

“A”

Quando vou digitar a segunda palavra, a porta abre.

- Oi amor, vai tomar banho que a gente vai sair.

Salvo o “A” e desligo o computador. 

Desculpem leitores, mas, hoje, não tem história. 

Segue lá no INSTA: Paulo Sergio












quinta-feira, 2 de maio de 2019

Gládis - A Desconfiada

Quando a moça entrou na biblioteca, pedi que assinasse o livro de presença.

- Pra quê? – perguntou intrigada.

- Para saber quantas pessoas estão frequentando.

Ela pegou a caneta, leu o cabeçalho do livro e questionou:

- Mas, eu tenho que marcar nome e bairro? Por que você quer saber onde moro?

- Para ter uma ideia de onde as pessoas se deslocam pra chegar até aqui.

- Mas, não vou colocar o nome da minha rua não.

- Não precisa. É só o bairro.

Ela ficou um tempo olhando para o livro antes de preenchê-lo.

Vi que se chamava Gládis.

- Eu quero fazer o meu cadastro. Do que eu preciso?

- Comprovante de endereço...

Ela me interrompeu.

- Êpa! Você disse que eu não precisava passar meu endereço.

- Eu disse que você não precisava anotá-lo no livro. Mas, para fazer o cadastro é preciso.

Depois de pensar um instante, ela concluiu:

- Faz sentido.

Tirou o comprovante da bolsa e colocou no balcão.

- Do que mais eu preciso?

- Duas fotos 3x4...

- Duas fotos? Por que duas fotos?

- Uma para ficar no teu cadastro dentro do arquivo e outra para colocar na tua carteirinha.

- E por que vocês não tiram foto na hora? Nas bibliotecas de São Paulo as fotos são digitalizadas.

- Infelizmente nosso sistema não é informatizado. Ainda fazemos carteirinha de papel.

Ela ficou me olhando, sobrancelha franzida como quem está desconfiada. Depois de um tempo, tirou as fotos da carteira.

- Falta alguma coisa?

- Sim. CPF e RG.

- Ahhhhh!!! Mas, nunca que eu vou te passar o meu CPF.

- Ué?! Mas você não disse que fez cadastro nas bibliotecas de São Paulo? Tenho certeza que lá eles pediram teu CPF.

- Não. Eu disse que lá eles tiram foto digitalizada. Foi isso o que eu disse.

- Ok. Mas você teve que passar teu CPF para completar o cadastro, certo?

- Errado! Quando me pediram o CPF eu desisti.

Era difícil de acreditar que pudesse existir uma pessoa tão desconfiada.

- Só por curiosidade... O que você acha que posso fazer com teu CPF?

- E você acha que sou louca de te dar essa dica?

Perdi a paciência. 

- Escuta aqui! Você tá achando que eu sou o quê? Uma espécie de golpista?

Peguei as fotos e o comprovante de residência e coloquei no balcão. Virei as costas e fui cuidar de outra coisa.

- Espera!

Olhei para ela.

- Você me parece um cara de confiança.

Gládis começou a mexer na bolsa. Tirou os documentos e também um celular.

- Vamos fazer o seguinte: enquanto você faz o meu cadastro, vou ficar filmando. Porque se no futuro, algo acontecer com o meu CPF, eu já sei que foi você.

- Eu não acredito nisso!

- Eu também não. Mas, vai que acontece. Eu preciso me garantir, não é?!

Fiquei observando aquela mulher e pensando: como lidar com uma pessoa louca?

A resposta era: entrar na loucura dela.

- Ok! Você vai me filmar. Mas, se a minha cara aparecer em qualquer rede social ou site, vou te processar por uso indevido de imagem. Inclusive, vou fazer uma ligação para o meu advogado e você já conversa com ele...

Quando tirei o fone do gancho, uma sirene de polícia soou lá fora.

- NÃO PRECISA!

- Como é que é?

- Não precisa! Lembrei que tenho médico daqui a meia hora e não vai dar tempo de fazer o cadastro. Tchau!

- Espera! Seus documentos...

Tarde demais. Gládis saiu feito um tiro. Recolhi seus documentos sobre o balcão. Zelosa e neurótica como era, certamente voltaria logo para buscá-los. Foi então que percebi algo estranho: embora as fotos do RG e da habilitação fossem de Gládis, os nomes nos documentos eram diferentes.

Na rua, gritaria. Voz conhecida. Saí na porta. Era Gládis. Presa pela polícia. Um policial apareceu. Fez perguntas sobre ela. Contei o ocorrido. E entreguei-lhe os documentos.

Lembrei-me de uma frase que o meu pai sempre dizia:

“Quem não deve, não teme.”

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terça-feira, 30 de abril de 2019

Casal 20k





Horas depois de encerrar o expediente na biblioteca, fui a uma choperia.

Enquanto aguardava meu chope, reparei no casal da mesa ao lado. Tanto a moça quanto o rapaz eram muito bonitos e estilosos.

A moça, ao lado do rapaz, esticou o braço fazendo uma selfie. Olhou o resultado e torceu a cara. Tirou outra. E outra. E mais outra... Pelo jeito não estava saindo perfeita.

- Deixa que eu tiro. – disse o rapaz.

Ele bateu uma foto. Não deu certo.

- Deixa eu trocar de lado com você.

Ele se sentou a direita da moça. Sendo destro, seria mais fácil acertar a foto nessa posição.

Ele esticou o braço comprido estilo pau de selfie e clicou.

“Agora vai” – pensei.

- Não ficou boa. – ele disse.

Eu já estava quase me oferecendo para fazer a foto quando o garçom chegou.

- Pode fazer uma foto pra gente? – pediu a moça.

O garçom tomou distância e tirou uma, duas, três para garantir. Devolveu o celular pra garota e seguiu.

Conferindo o resultado, ambos balançaram a cabeça negativamente.

Outro garçom apareceu trazendo o pedido deles.

Imediatamente, o rapaz ajeitou as porções e bebidas, pegou o celular e deu duas voltas na mesa procurando o melhor ângulo para fotografar.  

Demorou tanto, que a batata frita murchou, o queijo derreteu e a cerveja esquentou.

Quando sentou, foi a vez da menina tentar outra selfie. Ela virou a cabeça de lado e mostrou a língua. Ele fez cara de mau e um “V” com os dedos. 

Acho que o efeito era “Boomerang”. 

Dessa vez acertaram de primeira. Ela colocou o celular na mesa, pegou o copo de cerveja e o namorado propôs um brinde com foto, claro.

Ele usou o disparador automático e tirou muitas fotos em sequência.

Demoraram um bocado para verem todas.

- Gostei dessa. – ela disse.

- Essa não. Tá tremida. Prefiro essa daqui.

- Credo! Nessa eu tô com barriguinha.

“Barriguinha onde, meu Deus?”

Depois de um tempo, chegaram a um consenso e postaram duas fotos.

O rapaz colocou o celular na mesa, pegou uma batata frita e antes de mordê-la o celular vibrou. Conferiu:

- Já temos 3 curtidas!

Ela também pegou seu celular.

E ficaram assim pulando do Facebook para o Instagram para verem as curtidas e lerem os comentários. Mas, claro que havia pausas entre uma rede e outra. A pausa servia para eles responderem pessoas no Whatsapp.

Eu, que havia chegado depois, já estava no meu quarto chope e minha porção já havia acabado fazia tempo.

Olhei aquele casal tão bonito e fiquei pensando no que as pessoas estavam dizendo sobre eles: “Lindos!”, “Casal Top!”, “Melhor casal”.

E imaginando quanta gente invejava aquela “felicidade”, aquele “amor”, aquele “casal perfeito”.

Então, eu tive certeza que a solidão não é uma questão de falta de pessoas. 

Aquele casal não conversava, não se beijava, não tinha conexão. O que os unia era apenas a necessidade de mostrar aos outros uma imagem (falsa) de felicidade.

Quanto a mim, estava sozinho por opção. Mas, muito bem acompanhado pela minha própria presença, meus pensamentos, minha paz interior.

E meu chopinho, claro!

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Urucubaca

Uma colega da biblioteca chegou dizendo que ao fazer uma limpa no seu guarda-roupa encontrou no bolso de um casaco uma nota de R$50 reais.

Cheio de esperança, também promovi uma faxina em minha casa e dentro de uma gaveta achei um boleto que esqueci de pagar...

Dizem que sorte não existe. Outros, dizem que existe e que é um fase. Assim como também tem a fase em que a gente “tá cagado”.

Estava trabalhando um dia desses com uma preguiça do tamanho de um elefante e bocejando sem parar.

- O que é isso, Paulo? Tá com urucubaca? 

- Bobagem, isso não existe. - respondi pra minha colega.

Quando levantei para ir jogar uma água no rosto, a cadeira giratória deslizou, bateu na mesa do computador e quebrou a chave da gaveta que alguém, imprudentemente, deixou pendurada.

Com esforço, tirei o resto da chave quebrada da fechadura e levei até o chaveiro mais próximo.

- Quanto fica? - perguntei.

- Vinte reais. 

Achei um absurdo, mas, era o que tinha no momento. Coloquei a mão no bolso.

- Cadê minha carteira? 

Havia esquecido na biblioteca.

- Moço, pode fazer a chave que eu já volto. 
           
Voltei pra biblioteca. Abri a carteira. Só 10 reais. Corri até o banco. Peguei o dinheiro. Começou a chover.

O chaveiro ficava na praça e não havia onde esconder.

Quando a chave ficou pronta, eu já estava bastante molhado e comecei a espirrar sem parar.

No caminho de volta, escorreguei. A chave voou da minha mão caindo na grama.

Comecei a apalpar a grama e quem passava de carro não entendia nada. Alguns buzinavam. Outros gritavam algo que eu não entendia.

As pessoas quando não entendem o que veem, são assim: julgam, criticam ou tiram sarro. Eu mesmo certa vez achei que um cara era maluco por estar falando sozinho na rua. Só depois percebi que ele estava com fone de ouvidos falando ao celular.

A chuva já estava forte quando eu finalmente encontrei a chave.

Encharcado, cheguei à biblioteca. Encaixei a chave e tentei girar. Não girou. Voltei ao chaveiro.

- Olha, moço. Não funcionou. 

Ele analisou a chave.

- Putz! Foi mal. Eu te entreguei a chave errada.   

Pensei na chuva que havia tomado à toa e fervi de raiva. Meu corpo até secou.

Exagero!

Peguei a chave certa e voltei à biblioteca. Encaixei. Girei. Nada!

- Não é possível!     

Já estava saindo para reclamar com o chaveiro quando minha colega disse:

- Paulo.

- Eu?        

- Tô achando que essa chave não é dessa gaveta. 

Ela puxou a gaveta e a chave estava dentro.

Alguém tinha encaixado uma chave errada na fechadura. A chave que eu quebrei.

A chuva havia diminuído, mas eu continuava molhado. Atravessei a rua, fui até a loja da esquina e comprei uma camiseta. Na volta pra biblioteca, pisei na merda, mas não percebi.

Dizem que dá sorte. Sorte nada! A moça da limpeza quase me espancou quando deixei um rastro dentro da biblioteca.

Minha colega tinha razão. Era urucubaca sim!




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sexta-feira, 26 de abril de 2019

A Multa

Quinze dias é o prazo que o leitor pode ficar com um livro emprestado da biblioteca de Atibaia.

No caso de atraso na devolução é cobrada uma multa de um real por dia.

A data de entrega é anotada numa carteirinha individual que fica com o leitor.

E para reforçar nós ainda ligamos para quem passou do prazo de entrega. Mas, cobrar é sempre desagradável...

- Bom dia, é da casa da Gerusa?!

- Quem quer falar com ela?

- É da biblioteca.

- Quem?

- Paulo.

- Saulo?

- Não. PAULO!

- Paulo de onde?

- Da biblioteca.

- Não tô entendendo.

Resolvo falar mais alto...

- A GERUSA ESTÁ?

- O que você quer com a minha filha?

Alto e pausadamente...

- ELA PEGOU UM LIVRO... NA BIBLIOTECA... PRECISA DEVOLVER... ESTÁ ATRASADO.

- Eu não quero comprar nada não, moço.

Alto, pausadamente e insistentemente...

- GERUSA, POR FAVOR!

- Ela também não quer.

“TU, TU, TU, TU...”

O telefone é desligado na minha cara.

Ligo mais algumas vezes. Cai na caixa postal.

Tento o celular da garota. No terceiro toque ela atende:

- Alô?

- Alô! Gerusa?

- Sim, é ela. Quem gostaria?

- Aqui é o Paulo...

Silêncio por uns instantes.

- Alô? Gerusa? Está me ouvindo?

- Eu não acredito que você tá me ligando!

Rio da piada.

- Pois é... Não gosto muito dessa missão de cobrar, mas...

- CARA DE PAU!!!

Não parecia uma piada.

- Nossa! Calma! Isso faz parte do meu trabalho.

- Só se for o trabalho de fazer as clientes de trouxa!

Definitivamente, não era uma piada.

- Olha, acho que você está confundindo as coisas...

- Não, tem confusão nenhuma! Eu paguei por uma hora. Mas, você deu no pé quando fui ao banheiro. Como eu me arrependo de ter pagado adiantado. Como eu me arrependo...

Gerusa estava descontrolada e não me ouvia. Como fazê-la prestar atenção em mim e desfazer a confusão? 

Tive uma ideia.

- GAROTA EXEMPLAR.





- O quê?

- O livro que você emprestou da biblioteca.

- Peguei sim, mas...

- A devolução do livro está atrasada.

Depois de um breve silêncio.

- Quem está falando? É o Paulão Pé de Mesa?

- Não. É o Paulão da biblioteca.

- Ai que vergonha...

“Tu, tu, tu, tu...”.

Na mesma tarde, uma amiga da Gerusa apareceu na biblioteca. Devolveu o livro, pagou a multa e pediu desculpas pela confusão da amiga.

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terça-feira, 23 de abril de 2019

O Personagem Escritor

Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Livro!

Eu ainda não publiquei nenhum livro, mas, já fui personagem de um.

Para quem não sabe o Paulo Sergio da "Autobiografia Não Autorizada do Oscar Filho" sou eu!



E o capítulo bônus, a partir da página 279, também foi escrito por mim. São três histórias curtas e divertidas.

Para quem estiver lendo esta postagem pensando:

- Esse Paulo Sergio tá querendo aparecer na cola do Oscar Filho.

Eu respondo:

- Sim. Estou! 

Já para quem se interessar pelo livro, a biblioteca pública municipal do centro de Atibaia conta com um exemplar em seu acervo, doado pelo próprio Oscar Filho.

Acho relevante postar que o primeiro exemplar foi doado por mim, porém, um leitor levou emprestado e nunca mais voltou...

Frequente as bibliotecas!

Leia livros!

Só não se esqueça de devolvê-los!

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segunda-feira, 22 de abril de 2019

A Casa dos Espíritos

Dias atrás, depois de guardar livros, parei na porta da biblioteca para olhar a rua. Uma criança passando de mãos dadas com a mãe olhou de canto de olho e disse:

- Tenho medo de entrar nessa casa?

É fato que a biblioteca precisa de reformas, mas não imaginava que estava ao ponto de ser confundida com uma casa mal assombrada.




Se bem que o medo também pode ter sido causado pelo “porteiro”, que na imaginação do garoto seria eu.

“Preciso urgente arrumar minha sobrancelha”- pensei.

Parece exagero, mas a minha sobrancelha, se eu descuidar, humilha a do Monteiro Lobato.

A vantagem é poder penteá-las para trás, quando meus cabelos caírem, e ninguém perceber minha careca.




Mais interessante que o meu “parentesco” com o célebre escritor são as coisas que acontecem não apenas dentro da biblioteca mas ao seu redor.

Na loja de móveis do outro lado da rua há um rapaz que fica o dia todo gritando:

- Estacionamento aqui, ó! Estacionamento aqui, ó! Estacionamento...

Tal frase é repetida umas quatrocentas vezes, antes de uma pequena pausa para tomar água.

Sei que este é o trabalho dele. Um trabalho digno. Mas, quem tenta estudar na biblioteca reclama e muito.

Já eu e meus colegas, dia após dia aguentando isso das 9 às 18 horas, estamos discutindo uma solução: fazer uma vaquinha para comprar uma placa escrita ESTACIONAMENTO e doar para o rapaz segurar e parar de gritar ou jogar uma paçoquinha na goela dele para engasgá-lo.

Competindo com ele está a loja do “xingue-lingue” ao lado. Um único CD é tocado o dia todo a ponto da voz da Marília Mendonça sair rouca na última rodada antes das 18 horas.

O pior é que as músicas grudam na cabeça. Outro dia, por exemplo, um leitor entrou na biblioteca dizendo:

- A devolução do livro era pra ontem. Atrasei.

E em vez de responder “bom dia”, eu cantei:

- “Eeeeh, infiel...”.

Silêncio na biblioteca só antes das 9 horas.

Recentemente, cheguei às 8 da manhã ao trabalho e fiquei fazendo serviço interno. 

Havia uma brisa suave no ar, uma tranquilidade, uma paz que há muito tempo não sentia. Até que...

- SUA VACA!

Um grito raivoso cortou o ar. E recebeu resposta:

- NÃO ENCOSTA OU TE QUEBRO!

As duas vozes femininas vinham da sala de informática o que era bastante curioso, uma vez que a biblioteca ainda não estava aberta e as duas colegas de trabalho que já haviam chegado estavam na cozinha.

Os gritos continuaram exaltados e eu não tive dúvidas: a discussão era entre a loira do banheiro e o fantasma da biblioteca .

Foi então que as palavras daquele menino fizeram sentido: “– Eu tenho medo de entrar nessa casa...”.

Óbvio que ele era médium.

- Paulo!

Era minha colega me chamando.

- Você viu que tem duas mulheres brigando embaixo da janela da inclusão digital?

Estiquei o pescoço e me dei conta que a briga era lá fora.

Assistimos aquilo por um tempo. As duas mulheres gritavam palavrões e depois tentavam se estapear e unhar, mas quem apanhava na verdade era a coitada que estava no meio tentando separá-las.

Resolvi ligar para a polícia. Mas, quando tirei o telefone do gancho, minha colega interviu:

- Paulo, espera!

Eu me aproximei dela e observei a cena: as duas brigonas se abraçaram, pediram desculpas e uma delas disse:

- Aceita comer um pastel comigo?

- Aceito – respondeu a outra.

E como duas velhas comadres seguiram em direção à feira.

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A pegadinha do bêbado

Dias atrás, fui levar uma correspondência para o bibliotecário e passando pela sala de leitura ouvi alguém chamar:

- Escuta!

Olhei e era um andarilho que sempre aparece para ler o jornal do dia. Ele continuou:

- Fala pra mim: a quanto tempo a gente é amigo?

Estranhei, pois nunca conversamos a ponto de sermos considerados amigos. Ele prosseguiu:

- Lembra quando a gente ia lá e andava de skate? 

Lá? Skate? Eu nunca andei de skate!

Só então percebi que ele não falava comigo, mas com alguém que só ele conseguia ver.

Admiro e respeito muito quem tem mediunidade.

Mas o caso ali era outro: em poucos segundos, quase fiquei bêbado inalando aquela nuvem de corote formada em torno do sujeito.

- Me arruma um cigarro?

Fiquei aguardando para ver se o "amigo imaginário" ia ceder um cigarro.

- Ei! Me arruma um cigarro aí!

Daí percebi que ele estava falando comigo.

- Desculpe! Eu não fumo. 

- Faz bem! Tá vendo aqui no jornal? Essa reportagem diz que fumar pode causar 50 tipos diferentes de problemas de saúde.

Eu me aproximei para ler:

"Couve manteiga: R$0,99"

Era um jornal de ofertas do mercado!

Fingi que acreditei e pedi licença.

Ele passou a manhã toda conversando sozinho, mas sem incomodar ninguém, pois a biblioteca estava vazia.

Antes de ir embora, ele parou perto de mim e disse:

- Você achou que eu tava falando sozinho, né?

Tirou os fones de ouvido e só então eu entendi que ele estava conversando no celular.

- Mas e a história do jornal? - perguntei.

- Você caiu como um pato! 

Ele riu e foi embora.







quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Funcionária Fantasma

Jandira* veio trabalhar na biblioteca para fazer a mesma função que eu. 

Mas ganhando 5 vezes mais!

Sexta-feira, 9 da manhã em ponto abrimos as portas e já entraram três leitores.

E nada da Jandira aparecer.

9:15 h (Jandira chega):

- Bom diiiiiiiiiia!!! Desculpem o atraso, perdi a hora, acreditam?

- Bom dia, Jandira!

Jandira entra e vai guardar a sua bolsa no armário. No caminho, encontra Joana*, que quando começa a falar parece um caminhão cegonha sem freio descendo a Tamoios, ou seja, dispara e ninguém segura. 

9:45 h (Jandira consegue voltar pra recepção):

- Gente! Como a Joana* fala! 

- Nem me fale!

- Paulo, segura aí que vou dar um pulinho ali na padaria e já volto.

- Beleza!

Jandira vai até a padaria. 

10 horas (Jandira retorna):

- Você acredita que não tinha Toddynho na padaria? Eu não tomo café da manhã sem Toddynho. Segura meu pão aí que eu vou até a loja de 1,99.

Jandira larga o saco de pão sobre o balcão e vai atrás do seu Todynho.

10:20 h (Jandira retorna):

- Nossa! Tava uma fila lá. Paulinho, querido, pega meu saco de pão aí, por favor.

Jandira vai para a cozinha tomar o seu café, embora já fosse quase hora do meu café. 

10:45 h (Jandira aparece):

- Paulo, eu vou escovar meus dentes e já venho te ajudar.

- Ok, Jandira!

Jandira vai escovar os dentes.

11:15 h (Jandira volta mais pálida que a noiva cadáver):

- Ai, Paulo! Não tô legal. 

- Nossa, Jandira! Você tá branca!

- Acho que o Toddynho não me caiu bem. Vou até a farmácia comprar um remédio.

- Deixa que eu vou pra você. Senta aqui.

- Não precisa. Eu vou e aproveito pra verificar minha pressão.

Jandira vai até a farmácia.

12:15 h (Jandira retorna mais corada e com uma sacola enorme):

- Voltei.

- E aí, tá melhor?

- Bem melhor. Tomei um sal de frutas na farmácia e melhorei. Daí aproveitei e no caminho comprei uma batedeira na Black Friday. Vou lá dentro guardar.

Jandira vai guardar a batedeira.

12:20 h (Jandira volta):

- Paulo, vou fumar aqui na frente e já volto.

12:30 h (Jandira retorna):

- Vou usar o telefone fixo. Preciso marcar uma consulta.

Jandira liga para o Hospital. Ela é a décima na lista de espera das ligações para marcar consulta.

12:55 h (Jandira finalmente consegue concluir a ligação. Ela olha para o relógio na parede):

- Como a hora passou rápido! Já tá na hora do meu almoço.

Jandira vai buscar sua bolsa e volta.

- Paulo, tô indo almoçar.

13:30h (Saio para almoçar)

14:30h (Retorno do almoço)

- Paulo, a Jandira não vem depois do almoço? - pergunta uma outra colega de trabalho.

- Não sei. - respondo. - Já era para ela estar aqui à meia hora.

Entra Jandira:

- Gente! Desculpem o atraso! A cidade tá uma loucura. Não conseguia vaga para estacionar.

Jandira entra e vai guardar a bolsa.

14:35 h (Jandira reaparece):

- Vou dar uma "fumadinha" e já entro.

14:45 h (Jandira retorna):

- Pronto! 

Jandira mal senta, o celular dela toca:

- Alô? Quem? Oi, Alice! Quanto tempo? Como você tá, menina? Ah, eu tô ótima...

Jandira vai pra sala de informática falando no celular.

15:30 h (Jandira volta falando no celular):

- ... outro pra você, também, Alice! Tchau! (para mim): - Paulo, vou tomar meu café. Já passou da hora.

- Vai lá!

Jandira vai.

15:50 h (Jandira retorna):

- Ai que raiva!

- O que aconteceu, Jandira?

- Acredita que já acabou meu crédito do celular? Vou até a banca recarregar e já volto.

- Belê!

Jandira vai recarregar os créditos.

16 horas (Jandira entra):

- Fui em duas bancas e eles estão sem sistema. Vou até o banco.

Jandira vai ao banco.

16:15 h (Jandira aparece):

- Consegui. Recarreguei meus créditos.

- Que bom!

- Hum... Sabe do que me deu vontade agora?

- Do quê?

- Milk Shake! Vou comprar. Você quer?

- Não. Obrigado, Jandira!

Jandira sai para comprar o Milk Shake.

16:30 h (Jandira volta com um milk shake tão grande que mais parece um extintor):

- Quer, Paulinho? 

- Valeu, Jandira!

- Vou tomar lá na cozinha.

Jandira vai para a cozinha.

16:50 (Jandira passa acelerada em direção à sala da chefia)

17 horas (Jandira se despede):

- Tchau, Paulo! Tô indo embora mais cedo.

- Tchau, Jandira! Até amanhã! 

- Não, Paulo. Eu não volto mais. Vou pedir pra mudar de setor.

- Nossa, Jandira! Você só está com a gente a 5 dias. Por que você já quer sair?

- Achei muito cansativo trabalhar aqui...

Jandira vai embora. 

Rinaldo, o jardineiro linguarudo que passou o dia todo sentado lendo jornal não perde a oportunidade de especular:

- Paulo, quem é essa daí?

- É a Jandira.

- Eu não gosto de falar mal de ninguém mas ela não fez nada o dia inteiro. Não é à toa que falam mal de funcionário público.

- Mas ela não é funcionária concursada.

- Ah, não? E ela é o quê? 

- Comissionada...

*nomes fictícios











quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A Fazenda

Alguns anos atrás, entrou na biblioteca uma mulher de traços orientais e cerca de 40 anos. Usava um curto vestido branco que destacava sua boa forma e o cabelo preso num charmoso coque.

Numa das orelhas havia uma flor vermelha, mas o que dava o toque exótico ao figurino era o par de botas pretas de borracha com solado amarelo que ela calçava.

Pegou um livro na prateleira, "A fazenda em Paracatu", e começou a falar sozinha.

- Posso ajudar? - perguntei.

- Você trabalha aqui?

- Sim. Meu nome é Paulo.

- Eu sei. - ela respondeu.

Percebi que teria um teste de paciência pela frente.

- Esse livro é bom?

- Olha, ele chegou recentemente. Então, ainda não tenho referência.

- Eu morei  numa fazenda em Paracatu com meus pais quando era criança.

- Ah! Que legal.

- Mas eu não tô encontrando meu nome aqui. Nem os nomes deles.

Percebi que ela falava sério. Tive que explicar.

- Então... O livro se chama "A fazenda em Paracatu" mas isso não quer dizer que é a mesma fazenda que vocês moravam em Paracatu. 

Ela ficou muito, mas muito tempo olhando fixamente para mim. 

Eu já estava quase procurando um botão de "reiniciar" na cabeça dela quando ela destravou:

- Tem razão... Me dá um jornal.

- Qual?

- Um grande.

Peguei um jornal qualquer e entreguei a ela. Ela pegou e foi saindo com ele pela porta.

- Ei, moça! Aonde você vai?

- Vou levar o jornal pra casa.

- Não pode. O jornal é pra ser lido aqui dentro.

Ela voltou. Colocou o jornal no balcão e disse:

- Então eu compro na banca

Ela saiu. Eu me levantei para guardar alguns livros e só então notei o rastro de barro que ela havia deixado com suas botas. 

Peguei um pano e um rodo e já estava limpando o estrago quando ela voltou:

- Posso levar um livro emprestado?

"Meu Deus! É hoje"

- Pode.

- Mas antes eu vou ao toalete. 

- Por ali, moça.

- Mas aqui está escrito "banheiro".

- Sim. Mas este é masculino.

- Ah! Deixa. Quero usar o computador.

Ela escolheu uma máquina e se sentou.

- Qual o teu nome? - perguntei.

- Marcela. Mas o meu nome social é Angel Luz. E o meu nome artístico é...

- Não precisa! Um nome é o suficiente pra eu anotar aqui nas estatísticas.

- Mas então eu quero usar o meu nome artístico: Maria Silva.

- Ok. Maria Silva. 

Anotei e já estava saindo da sala de informática quando notei um movimento estranho.

- Maria! Por que você está desligando os computadores? 

- Porque eu já escolhi este aqui pra usar: número 9.

- Ok. Mas os outros têm que permanecer ligados.

- Pra quê? 

- Porque logo outras pessoas vão chegar querendo usar.

- Mas não tem ninguém usando.

- Mas tem que deixar ligado.

- E se eu quiser trocar de computador?

- Por quê? O 9 não tá funcionando? 

- Tá. Mas e se eu quiser trocar?

- Por quê? 

- Posso trocar?

- Troca então, vai!

Ela se levantou e começou a desligar os computadores novamente.

Daí não aguentei mais e explodi:

- PELO AMOR DE DEUS!!!

Ela parou e ficou me encarando muda.

- Maria, você escolhe 1 computador, senta e usa. Os outros você não mexe porque você não é funcionária da biblioteca. ENTENDEU?

Sem querer, fiz a minha melhor interpretação de olhar de psicopata na vida.

Mas ela, fria como um iceberg, olhou para mim e perguntou suavemente: 

- Você tá nervoso, Paulo?

- O que você acha, MARIA?

Ela segurou a minha mão e disse carinhosamente:

- Eu te endendo. Trabalhar na biblioteca deve ser MUITO estressante.

Levantou-se e foi embora.

Até hoje não sei se ela falava sério, estava sendo irônica ou era doida.

O que sei é que desde esse dia ela nunca mais apareceu.

Deve ter voltado pra Paracatu.

Tomara!